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“Meu maior sonho daqui pra frente é ser
feliz”
Marcelo Dourado vence o BBB10 com 60% dos mais de
150 milhões de votos, nega que seja homofóbico e diz que pretende
ajudar os irmãos e fazer projetos sociais com o dinheiro do
prêmio
POR LUCIANA
BARCELLOS, LAÍS RISSATO E PRISCILA BESSA
Dourado comemora a vitória entre
Cadu e
Fernanda
Aos 37 anos, o lutador
gaúcho Marcelo Dourado ganhou, na noite de
terça-feira (30), o prêmio de 1,5 milhão de reais do Big
Brother Brasil 10. Ele ficou com 60% dos 154.878.460 votos
recebidos pelo programa na última votação, um número que já entrou
para a história da TV. “O BBB10 bateu o recorde
mundial”, anunciou o apresentador, Pedro
Bial. A dentista Fernanda conquistou o
segundo lugar e o personal trainer Cadu, o
terceiro. Na entrevista que deu após sair da casa, Dourado atribuiu
a vitória à educação que recebeu da família, e dedicou a conquista
a seus professores de lutas marciais. No chat, realizado logo
depois, afirmou que o grande jogador é o público. “O mérito
maior é de quem votou em mim.”
Ele disse que pretende investir o dinheiro do prêmio, comprar uma
casa para ele e também para os irmãos, moradores de Porto Alegre,
no Rio Grande do Sul. Afirmou ainda que não vai parar de trabalhar
e que quer fazer projetos sociais. “O meu maior sonho daqui
pra frente é ser feliz. Sempre. Dar alguma ajuda para os meus
irmãos. Pretendo viver, voltar a treinar. Agora terei condições.
Não quero parar de trabalhar, pois adoro meus alunos. Fazer um
projeto social é uma obrigação minha, pretendo devolver tudo o que
veio de bom em forma de trabalho.”
Participante mais polêmico do BBB10, Dourado também disse que foi
100% autêntico no jogo, tanto para o lado bom quanto para o ruim.
“Não me arrependo de nada. O que as pessoas viram foi o meu
máximo”, declarou. O vencedor também negou que seja
homofóbico. “Só soube desses boatos agora que saí da casa.
Não sou homofóbico. Não tem nem o que comentar sobre o que os
outros falam.”
Marcelo Pereira Dourado soube aproveitar muito bem a segunda chance
que teve. Há seis anos, no BBB4, o lutador de jiu-jítsu amargou uma
derrota popular, saindo no primeiro paredão de que participou, na
oitava semana do programa, com 68% dos votos. De volta ao reality
show da Globo, tornou-se o mais popular e também o mais polêmico
concorrente, ao bater de frente, principalmente, com dois
participantes homossexuais, a jornalista Angélica
e o maquiador e drag queen Dicésar. Dono de
opiniões e atitudes consideradas preconceituosas, Dourado afirmou
que homens heterossexuais não contraem o vírus da Aids e chegou a
levantar-se da mesa do almoço, dizendo ter perdido o apetite,
quando uma conversa sobre paqueras gays estava rolando.
Mesmo tachado de homofóbico pela opinião pública, ele voltou de
cinco paredões. A vitória, que lhe rendeu o prêmio de 1,5 milhão de
reais, foi pressentida por sua mãe, Rose Porto
Alegre. “Quando ele me contou que voltaria (para
o programa), tive uma visão e disse: ‘Você vai
vencer’”, disse a astróloga, roteirista e coreógrafa a
QUEM. Nada mal para quem, há um ano, voltou de uma tentativa
fracassada de fazer a vida como lutador na Nova Zelândia. Lá,
trabalhou como segurança de boate e carregador de caixas numa
exportadora de kiwi. “A única coisa boa foi voltar falando
inglês, que ele aprendeu na marra, para se virar”, conta a
jornalista Beatriz Colens, amiga do lutador.
Dourado nasceu em Santiago, no Chile, onde os pais se refugiaram da
ditadura militar brasileira. De volta ao país, a família se
estabeleceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ele formou-se em
educação física e só deixou a cidade em 2004, para participar do
BBB4. Quando saiu do programa, decidiu continuar no Rio, mas a vida
não foi fácil. Morando em um casarão malconservado que funcionava
como república, no bairro do Recreio dos Bandeirantes, ele deu
aulas em academias de boxe e jiu-jítsu até ir tentar a vida na Nova
Zelândia, em 2008. Quando retornou ao Brasil, a república estava
lotada, então, Dourado morou de favor na casa de amigos e, depois,
numa quitinete de menos de 12 metros quadrados, sem janelas, na
favela do Terreirão, também no Recreio. “O lugar era tão ruim
que ele nunca me chamou para ir lá, tinha vergonha”, diz a
amiga Beatriz.
SANDUÍCHE
“PODRÃO”
Muitas vezes, o lutador
não tinha dinheiro e comia na casa de conhecidos. “Almoçava
duas vezes por semana comigo. Às vezes, ficava sem graça de estar
incomodando”, diz o amigo e também lutador Bruno
Gargaglione. A última refeição do dia, nessa época, tinha
dois endereços. Quando Dourado tinha dinheiro, era um sanduíche de
3 reais em um trailer localizado na entrada da favela, ao qual
podia acrescentar o que quisesse. Ele variava ingredientes como
salsicha, hambúrguer e ovo de codorna, sempre acrescidos de salada.
“Era o ‘podrão’, quase um PF (prato
feito)”, diz o amigo Mauro Verry.
Quando não tinha grana, o destino era a Pizzaria Sapore
d’Italia, também no Terreirão. “Ele comia de graça e
traçava todas as pizzas que sobravam das outras mesas”,
entrega o pizzaiolo Daniel
Torres.
Dourado abraça Cadu:
para o vencedor, as amizades e a superação dos desafios da casa
foram o melhor do BBB
COLCHÃO NO
CHÃO
O lutador chegou a dar
aulas em quatro academias da Zona Oeste do Rio e ganhava, em média,
entre 25 e 30 reais por hora/aula. Quando a situação começou a
melhorar, sempre no Terreirão, ele mudou para outra quitinete, em
um prédio próximo ao lugar conhecido como Rua do Valão. Em novembro
de 2009, mudou novamente para outra, onde morou até entrar no
BBB10. Muito simples, o lugar conta apenas com um fogareiro, um
frigobar, uma televisão e um colchão no chão. “Ele passou
muito perrengue”, diz o professor Keké
Vianna, que o substituiu durante sua permanência na TV.
Foi através de Keké que Dourado começou a dar aulas gratuitas de
jiu-jítsu para crianças do Terreirão, em uma academia improvisada
na favela. “Ele decidiu dar uma força dando aulas duas vezes
por semana”, afirma. “Ele é um ótimo professor”,
diz Eduarda Fernanda de Almeida, de 10 anos, a
única menina do grupo.
Sem muitas perspectivas, Dourado havia decidido, pouco antes de
entrar no BBB10, tentar a sorte novamente no exterior.
Iria trabalhar como assistente da amiga Beatriz, fazendo matérias
de comportamento e esportes radicais na TV Toronto News, no Canadá.
“Ele estava se sentindo fraco, doente, se alimentando mal. As
passagens já estavam compradas, quando entrou no
BBB”, afirma Beatriz. O convite para o programa foi
visto como uma segunda chance para Dourado que, após o fracasso da
primeira vez, havia tatuado a expressão “Sem fé” no
braço esquerdo. “Ele ficou muito deprimido”, explica
Aline Antonoff, amiga e empresária do campeão.
“Falei para o meu filho abraçar essa oportunidade e fazer o
que mais sabe fazer na vida: lutar muito”, disse
Marco Antônio Dourado, pai de Dourado. Talvez por
isso ele tenha a frase “Luto por prazer” tatuada no
braço direito. “Ele é um guerreiro”, afirma a namorada,
a comerciante Érika Barrosa, de 31 anos, que
durante todo o confinamento do lutador evitou a exposição.
“Somos muito reservados”, diz a carioca. Com seu
“guerreiro” campeão e milionário, porém, vai ser
difícil, a partir de agora, evitar os
holofotes.
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COMENDO PIZZA
GRÁTIS
O pizzaiolo Daniel Torres
conta que, quando estava sem dinheiro, Dourado
comia as pizzas deixadas pelas outras mesas na Pizzaria Sapore
d’Italia, na favela do Terreirão, no Rio de Janeiro
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O JANTAR A 3
REAIS Nos dias em que podia pagar por uma refeição, o
lutador ia, à noite, a um trailer que vende sanduíches a
3 reais. Ele variava os ingredientes, como salsicha, hambúrguer e
ovo de codorna
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PROFESSOR DA
CRIANÇADA
Mesmo ganhando entre 25 e 30 reais por
hora/aula nas academias em que trabalhava, Dourado
também dava aulas de graça às crianças da favela em que
morava |
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